domingo, 22 de março de 2009

“COMO USAR TEATRO PARA AUXILIAR O ENSINO DE BOAS PRÁTICAS DE FABRICAÇÃO E LEGISLAÇÃO”

Nesse tipo de estratégia de ensino, pretende-se a construção do conhecimento por parte dos alunos. Os conteúdos não são oferecidos a eles de uma forma pronta, como uma receita de bolo a ser consumida, mas sim pesquisado e construído coletivamente. A técnica promove o entrosamento entre alunos e o professor e maior interesse pelos conteúdos da disciplina. Ela consiste na apresentação de temas que o professor pretende enfatizar, previamente selecionados por ele, sobre a forma de representação teatral (com bonecos, com atores, em forma de vídeo, teatro cantado), enfim, na modalidade que os alunos escolherem.
O momento da criação do roteiro teatral possibilita a construção de significados próprios para os alunos e contextualização de assuntos específicos da disciplina. O roteiro aqui proposto foi desenvolvido e testado no decorrer da minha atividade profissional no ensino médio e técnico nos anos de 2005 e 2006 e no ensino de graduação tecnológica desde 2007, tendo como foco a mesma disciplina, diferenciando apenas na complexidade da abordagem em cada nível educacional. Esse fato demonstra que, independente da idade, o teatro fascina o aluno e auxilia no aprendizado. Essa experiência fez parte da minha dissertação de Mestrado profissional em Ensino de Ciências e foi baseado na Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) e no “Drama como método de Ensino”
O roteiro será descrito para o contexto de Boas Práticas de Fabricação e Legislação, entretanto, adaptações poderão ser feitas para outras disciplinas.
ROTEIRO:

1) O professor deverá selecionar os temas constantes do conteúdo programático da disciplina que serão abordados por meio de teatro. Para Boas Práticas de Fabricação foram os Regulamentos Técnicos de Boas Práticas de Fabricação imprescindíveis para a atuação profissional que por limitação de carga horária da disciplina não haveria tempo hábil para tratá-los. As normas foram: (a) Portaria SVS/MS nº 326 de 1997 – BPF de Alimentos Industrializados; (b) Portaria SVS/MS 348 de 1997 – BPF para Indústria de Cosméticos; (c) RDC/ANVISA 67 de 2007 – BP de manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para uso humano em farmácias.
2) Apresentar a proposta e o objetivo da estratégia de ensino no primeiro dia de aula, pois ela será construída coletivamente no decorrer do período letivo.
3) Dividir a turma em grupos. É importante que os grupos não sejam grandes demais (no máximo 6 pessoas).
4) Os temas selecionados previamente pelo professor, à princípio, devem ser negociados entre as partes de maneira democrática, pois a empatia com o assunto incentiva a participação. Se isso não for possível, sortear os assuntos.
5) Num segundo momento, caso a instituição de ensino conte com um laboratório de informática, conduzir os alunos para lá.
6) Orientar os alunos nas ferramentas de pesquisa e sobre a validade dos conteúdos acessados por eles. No contexto experimentado os alunos foram conduzidos ao laboratório de informática e familiarizados com os vários sites de busca de legislação sanitária. A explanação foi intensificada no site “visa-legis”: http://e-legis.anvisa.gov.br/leisref/public/home.php, base de dados oficial sobre legislação do Ministério da Saúde.
7) Num terceiro momento, como atividade para ser feita em casa, os alunos munidos dos textos necessários para a construção dos seus roteiros teatrais devem realizar uma leitura minuciosa do material.
8) Para que os grupos tenham alguma idéia de como produzir um enredo teatral que faça sentido, é sugerido por parte do professor, que eles busquem notícias de qualquer veículo de comunicação que faça menção ao assunto escolhido. Assim é possível uma correlação da vida real com o conteúdo abordado em sala de aula.
9) Os grupos devem ser orientados a produzir um material escrito sobre a forma de resumo, evidenciado os pontos das normas que constituem o diferencial de cada uma delas, pois o objetivo é explorar os pontos específicos de cada ambiente, e não os princípios fundamentais que se repetem em todas as normas. Esse texto, após a distribuição, servirá como material de consulta posterior.
10) Este material deve ser entregue ao professor para correção pelo menos um mês antes da data prevista para a encenação, que no caso presente foi o último dia de aula, ou seja, o texto precisa ser entregue ao professor um mês antes do término do período letivo.
11) As devidas correções ao material escrito sobre a forma de resumo devem ser assinaladas e devolvidas pelo professor aos grupos em no máximo uma semana.
12) Os grupos devem devolver o material corrigido ao professor para conferência em no máximo uma semana.
13) Na semana seguinte, após os ajustes necessários no texto produzido pelos grupos o professor deverá distribuir uma cópia de cada resumo para todos os outros grupos.
14) Solicitar que cada grupo, munido do texto produzido pelos outros colegas, leiam os textos e tragam por escrito uma pergunta sobre cada assunto a ser dramatizado.
15) O roteiro da peça teatral é construído e a encenação apresentada à turma, cada grupo a sua vez.
16) Em seguida a cada apresentação, a notícia pesquisada pelo grupo é lida em voz alta para todos.
17) O professor, munido das perguntas formuladas pelos outros grupos deve dar início à discussão, pois em algumas circunstâncias, os alunos demoram a vencer a timidez. Nesse ponto, o professor deve atuar ativamente como moderador das discussões.

ATENÇÃO:
Alguns cuidados devem ser tomados para o melhor aproveitamento da estratégia de ensino. Descrevo a seguir algumas críticas que se configuraram em entraves no bom andamento do trabalho:

a. Caso a instituição de ensino não conte com laboratório de informática, fazer o mesmo trabalho de orientação na biblioteca.
b. Se não houver biblioteca no local, buscar uma biblioteca pública e promover essa ação no ambiente externo ao da instituição.
c. Na realização dos itens a, b é preciso a participação e o acompanhamento efetivo do professor.
d. Grupos muito grandes, com muitos componentes dispersam o trabalho. Nem todos participam de maneira ativa e igual. Grupos muito pequenos com duas ou três pessoas, pela pouca experiência dos alunos, nem sempre se o resultado teatral é satisfatório.
e. Vencer a timidez de certos alunos, às vezes é uma barreira comum. Esse aluno deve ser tranqüilizado e esclarecido que não precisa se expor. Ele pode participar construindo as falas da encenação ou providenciando o cenário. Uma boa pesquisa do assunto resulta numa boa construção de cenário e script.
f. Nem todas as instituições de ensino contam com laboratório de informática e a internet também não deve ser considerada o único meio para pesquisa. Os alunos devem ser incentivados a buscar informações em outros lugares.
g. Disciplinas que tenham pouco tempo de duração (aulas com 50 minutos, por exemplo) podem inviabilizar a realização da estratégia. Esse fator pode ser minimizado, limitando o tempo das pequenas encenações em 10 minutos, com mais 10 minutos para discussão. Não utilizar mais que dois dias para realizar o projeto, com riscos de dispersar a atenção dos alunos ao assunto, por conta da excitação pelo evento teatral.
h. Se não for possível realizar a encenação em sala de aula, propor a atividade em espaço extra-classe, numa feira de ciências ou numa data festiva. Nesse caso, serão necessárias algumas adaptações ao formato mais livre de apresentação.

POTENCIALIDADES DA ESTRATÉGIA:
a. Promover a ação de aprender pela pesquisa.
b. Permitir que os alunos, ao construir os roteiros, façam suas próprias associações cognitivas com seus conceitos prévios, promovendo a aprendizagem significativa.
c. Problematizar temas mais “áridos” de maneira prazerosa, aproximando o aluno de um conteúdo, por vezes, considerado difícil ou chato.
d. Desenvolver a percepção e outras aptidões nos alunos que não são inerentes ao ambiente da disciplina.
e. Promover associações com outros assuntos que não façam parte direta da disciplina em questão. (Interdisciplinaridade).
f. Encontrar sentido prático em aprender alguma coisa, que por vezes parece “descolada” da vida real. (Contextualização).

“COMO USAR O DESENHO ANIMADO PARA AUXILIAR O ENSINO DE BOAS PRÁTICAS DE FABRICAÇÃO E LEGISLAÇÃO”

O roteiro aqui proposto foi desenvolvido e testado no decorrer da minha atividade profissional no ensino médio e técnico nos anos de 2005 e 2006 e no ensino de graduação tecnológica desde 2007, tendo como foco a mesma disciplina, diferenciando apenas na complexidade da abordagem em cada nível educacional. Esse fato demonstra que, independente da idade, o desenho animado fascina o aluno e auxilia no aprendizado. Essa experiência fez parte da minha dissertação de Mestrado profissional em Ensino de Ciências e foi baseado na Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) e na “Mídia-Educação”.
A experiência serviu para afirmar a utilização de cinema de animação não só para crianças, mas também para adolescentes e adultos. A intenção dessa atividade é o de se extrair sentidos de uma manifestação artística que já está pronta, analisando-a. Permitir que os alunos façam suas correlações individuais para formar significados próprios, à luz dos conceitos que foram comentados em sala de aula.
O roteiro será descrito para o contexto de Boas Práticas de Fabricação e Legislação, entretanto, adaptações poderão ser feitas para outras disciplinas.

Filme utilizado - Monstros S.A


roteiro
1. Essa estratégia deve ser utilizada após a abordagem em sala de aula do assunto que se deseja discutir. No caso da disciplina de Boas Práticas, a estratégia foi utilizada após a apresentação de todo o conteúdo programático com aulas expositivas
2. O professor deverá selecionar os temas constantes do conteúdo programático da disciplina que pretende enfocar e discutir por meio de desenho animado. No caso da disciplina de “Boas Práticas de Fabricação e Legislação” foram dez, a saber: (1) Documentação e registros; (2) Descontaminação; (3) Treinamento; (4) Limpeza; (5) Uso de equipamentos de proteção individual – EPI; (6) Destruição de material; (7) Alimentação dentro da fábrica; (8) Segurança; (9) Registros em tempo real; (10) Organização industrial.
3. A partir de então, é o momento da seleção do desenho animado. É preciso assistir muitos desenhos, na íntegra, mais de uma vez e procurar a correlação dos temas centrais da trama com os conteúdos que se deseja abordar em sala de aula.
4. Sistematizar uma lista onde figure todos os pontos de interesse no desenho, para que se tenham parâmetros de comparação com as respostas dos alunos.
5. Verificar o tempo disponível em sala de aula para a aplicação da estratégia.
6. Antes da exibição os alunos devem ser orientados a assistir a fita sem fazerem comentários um com os outros. Se houver tempo, ou necessidade o desenho pode repetido.
7. Conduzir a exibição do desenho na íntegra ou o trecho selecionado.
8. Após a exibição solicitar aos alunos a preparação de um trabalho escrito individualmente, sem comentários com os colegas, em que constem as associações individuais entre as cenas exibidas e o assunto de interesse a ser apreendido pelo educando.
9. A produção do trabalho escrito individual servirá para avaliar como acontecem as interrelações individuas acerca dos conteúdos abordados em sala de aula de maneira tradicional, sendo resgatados de maneira não convencional.
10. Após a entrega dos trabalhos escritos individualmente, a discussão deve ser iniciada, de forma que todos possam trocar suas percepções.
11. A abertura para a discussão sobre os temas despertados com o desenho servirá para promover a reflexão sobre o que se aprendeu em sala de aula, fazendo uma ponte com a vida prática.
12. Após o término da exibição incentive os alunos a reverem a fita no todo em casa, já com o “olhar treinado”.
13. Solicite que os alunos procurem em casa outros títulos de desenhos animados que estejam relacionados com a disciplina e construam um pequeno texto promovendo uma ponte entre a disciplina e enredo da história.

ATENÇÃO: Alguns cuidados devem ser tomados para que a estratégia logre êxito. Descrevo a seguir algumas críticas que se configuraram em entraves no bom andamento no decorrer do meu trabalho:

a) É importante, antes de fazer uso da estratégia, se assegurar da disponibilidade de local para a apresentação do desenho. Verificar se som está audível para salas de aulas e turmas muito grandes.
b) Verificar se a escola conta com o equipamento necessário e compatível com a mídia onde está o desenho;
c) Instalar e testar o equipamento antes da exibição e de preferência já colocar o desenho no ponto certo de interesse para a exibição;
d) Explicar minuciosamente para os alunos o que se pretende com a estratégia, que tipo de avaliação será feita e quais as regras a serem seguidas.
e) Se for uma animação em longa metragem e a aula contar somente com 50 minutos, procure exibir somente um pequeno trecho da fita que seja mais importante para a discussão.
f) É aconselhável sondar o gosto e a preferência da turma antes de usar esses recursos. Nem todas as pessoas acham que o desenho animado é apropriado para a idade. Adultos podem achar a prática demasiadamente infantil e, adolescentes tendem a negar atividades que os vincule às crianças.
g) Explique detalhadamente o que se pretende extrair de sentidos antes de exibir a fita, caso contrário, o aluno poderá encarar a atividade como entretenimento e não terá um bom aproveitamento da prática, dispersando-se.

POTENCIALIDADES:

1) O desenho selecionado foi Monstros S.A da Pixar Estúdios, e a disciplina foi “Boas Práticas de Fabricação”, que aborda entre outros assuntos, os fundamentos para um bom funcionamento de uma fábrica. O desenho animado foi escolhido por conter claramente pelo menos 10 princípios fundamentais de BPF facilmente identificáveis. Os alunos foram convidados a analisar e sinalizar no desenho animado os tópicos abordados em sala de aula, preparando em seguida à exibição um trabalho escrito individual, detalhando:
(a) quais os fundamentos de BPF que você identificou na fita;
(b) se os fundamentos identificados estão certos ou errados dentro de nosso contexto de trabalho;
(c) por que estão certos ou errados e de acordo com que norma.
2) Mesmo que em princípio, o professor tenha sinalizado 10 fundamentos que figuram explicitamente no desenho, algumas vezes, dependendo do comprometimento do aluno e da motivação em aprender, outros conceitos subjacentes foram assinalados por eles.
3) Essa estratégia de ensino pode substituir uma avaliação convencional, que por vezes pode trazer certo nervosismo ao aluno, comprometendo seu desempenho.
4) Não se preocupe se o filme não for todo exibido. A técnica não tem compromisso com entretenimento e sim com as associações mentais que cada aluno pode fazer a partir dos subçunsores apresentados nas aulas teóricas. Com essa estratégia de ensino é possível fazer a ancoragem de conceitos prévios.Enfatize que a técnica não serve somente para discutir o assunto específico da disciplina, mas também para aguçar a percepção, fato que facilita no aprendizado em outras áreas também.